sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Entre Ausências E Cicatrizes



Desse tal relógio! Pouco ou nada sei. 
O tempo ao contrário me sabe bem...
Furta-horas, salafrário como ninguém.
Em conta-gotas perco o que já passei. 

Mas a labuta das manhãs eu conheço 
E aquela modorra buliçosa das tardes!
Não conto os minutos, nem faço alarde.
Dias passam num calendário travesso.

Folhas que esvoaçam num afã diário...
lá no varal a roupa dança com o vento. 
Há poemas inéditos nesse movimento,
que por enquanto são só imaginários...

À noite reparto sonhos com fantasmas,
num videotape dos momentos felizes.
Sobrevivo entre ausências e cicatrizes.
Empresto fôlego á alegria com asma...

Rosemarie Schossig Torres

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Entre Um Caos E Outro...


Quisera ter um coração arrojado
portar alegre as minhas penas,
feito as avezinhas tão pequenas,
fazendo festa no arame farpado.

Poder sorrir na cara do destino
e afrontar cada desmando seu.
Segurar as rédeas do comando. 
No tédio gris ver laivos azulinos.

E contra os dias escuros e frios
ter sob a manga um raio de sol.
No tempo oportuno um arrebol
para salvar de dúbios desvarios.

Aos pés dos distúrbios uma flor
plantada bem no olho do furacão.
Entre um caos e outro a canção,
que espante qualquer dissabor.

Rosemarie Schossig Torres

sábado, 19 de dezembro de 2015

Versos Pelo Chão Molhado





Poesia vem lavrada em gotas de chuva.
Nuvem fria, a enxurrada lava-lágrimas... 
Fértil palavra sobre uma folha em branco
catarseando a ladainha dos dias tristes...
Que chapinha versos pelo chão molhado.

Chega o aguaceiro banhando terra e alma.
É a trovoada que me desterra do cerrado 
e encerrada entre quatro paredes úmidas
deixo o meu caminho cotidiano das flores. 
Eu nem me queixo, tenho livros nas mãos.

Rosemarie Schossig Torres

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Alma...Viva



Tenho olhos treinados pra ver borboletas.
Determinado empenho em distinguir asas.
O dom para farejar suas trajetórias e voos.
...E se a sorte me favorece encontro flores.

Entre um dia e outro ainda faço um poema.
É onde os dilemas se escondem, traquinas,
numas entrelinhas, acoitados pelas rimas...
que a inspiração, coitada, tão parca escreve.

Então aí a alma se atreve a aparecer, tímida,
ainda coberta pela poeira das intempéries...
Resguardando-se dos arranhões do destino.
Pousa nos versos, dizendo: estou aqui, viva.

Rosemarie Schossig Torres

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Cenário De Brinquedo


A borboleta azul da infância esbarrou em mim!
Dentro do cenário de brinquedo, que invento, 
no céu gira uma esfera amarela, é cata-vento,
que esquenta minhas penas e as do Passarim.
Vem o colibri beija a meiga flor da esperança!
Suga os turvos pensamentos e espalha mel.
Empino a poesia nas linhas, roda um carretel.
Feito pipa toda tristeza sai do chão, balança...
... Entre as nuvens; agora é uma dor distante.
E posso olhar de fora para dentro a desdita.
Nem chora aquela saudade que no ar levita.
Coração ninado nas lembranças vai adiante.
Rosemarie Schossig Torres

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Quando As Margaridas Choram






Ah essa tristeza que lavra a poesia,
represa que eu não quero desbordar,
estancada sob o tapete da memória.
Em cima plantei um canteiro de flores.

E às vezes as margaridas choram...
Uma água que corre fora da estação.
Em pétalas perdidas vão as mágoas .
Voam pelo desvão do tempo passado.

Alegrias que destoam surgem súbitas.
Gravitam na atmosfera, cantos de ave.
Lenitivo suave que acolchoa a vereda.
Rasgo a seda da solidão e sigo adiante.

Rosemarie Schossig Torres

sábado, 12 de setembro de 2015

Flores Impensadas



A chuva revela flores impensadas...
Cores sepultadas pela poeira do estio.
Grãos renascidos da última queimada,
trazidos de longe por um vento vadio...

Um cheiro macio de terra molhada no ar
fecunda as narinas, instiga imaginações,
irriga amores primaveris que vão chegar.
Rebrota o tapete verde acolhendo botões.

Vão encolhendo as cinzas, saltam tons...
Desde o desvão da estiagem os renovos, 
remoçada a roupagem exibem seus dons.
É a natureza imitando a Fênix de novo!

Rosemarie Schossig Torres