domingo, 9 de junho de 2019
domingo, 29 de janeiro de 2017
Borrão Perdido
Diante
do verde-azul da paisagem, uma teia.
Será intransponível? O olhar-inseto nada vê,
sufocado no fio invisível que Ariadne semeia
no puro ar... Põe a transeunte à sua mercê...
E num rejunte de pontos constrói o seu muro.
Rendeira de oito patas, sua casa é um alçapão,
tecido em ouro e prata, tatuagem no escuro...
de um fictício papel em branco, mata o borrão...
...perdido
no terreno das ideias, resgata-palavras,
presas em um outro labirinto, entranhado em mim,
empoçada num círculo vicioso triste, de pouca lavra,
de difícil localização, que por enquanto teve um fim...
Rosemarie
Schossig Torres
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Nos Umbrais Da Liberdade
Nos umbrais da liberdade Falena se detém.
Fada de asas quase diáfanas, bem pequenas,
para tantos ventos avessos trazendo nuvens,
que a fresta anuncia, aparência nada serena.
Pára o tempo, átimo de agonia e perplexidade.
Ah! Luz arrebatadora, cega os olhos e alucina,
trafega pelas pupilas cheias de ansiedade...
Sorrateira faz tremer a sua figura de bailarina.
Já cansou de estar protegida, pairar na vidraça
ao lado flores de plástico e cômodos desbotados.
De bom grado ela escaparia, ganhando a praça
nas graças da brisa com o coração acelerado...
Indecisa olha outra vez pela janela entreaberta.
Verdes e laranjas, bailam, eclipsando a visão,
esbanjando coloridos; sua borboletice desperta
e num rompante alça voo e ganha a amplidão...
Rosemarie Schossig Torres
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
Paciência
Em um trecho
escuro do quarto
pena uma
tristeza tentando sorrir,
buscando
talvez na beleza guarida.
E vê no meio
do caminho do querer
a dor, como
uma pedra ou um nó...
azedando o
riso e cevando o sofrer.
E ficou uma
lágrima rondando a casa,
vacilando em
rodapés de intempéries.
Vida e
desejo díspares; desarmonia...
Então cai
uma chuva gris sobre os dias...
Foi a alegria
que esqueceu o gozo no pó,
enquanto a
alma flertava com o dissabor.
Só por agora
o momento frio, de escuridão.
Pois há um
estremecimento na melancolia,
como
querendo desvencilhar-se...paciência!
Rosemarie
Schossig Torres
sábado, 16 de julho de 2016
Amanhecer Sem Noção
Que rara manhã! quero-queros silenciosos
e entre pombos ociosos rondam os carcarás.
O sol mostra no céu o seu alvará de soltura,
depois se esconde atrás de moitas de nuvens.
Nenhum sinal responde aos gritos das araras,
que passam raspando na linha do horizonte...
Aquela avezinha cinzenta até parece colorida
no solo sem aquarela de troncos incendiados.
Amanhecer mais sem noção! Tanta preguiça
em dia pedindo vigor, enguiça as engrenagens,
espalha torpor...talvez seja esse calor de verão
e ainda nem é primavera! Aonde vamos parar!
Rosemarie Schossig Torres
domingo, 10 de julho de 2016
Lampejo de Criação
Em minha reclusa alma invernal
hibernam quietinhas as palavras.
Um silêncio de luto; pouca lavra,
onde se apoucam ideias sem sal.
Feito as loucas ninfeias do olvido
(não sabem a água onde nasceram)
odes abnegam a fonte que beberam;
segam a poesia que poderia ter sido.
Por seca via corre o fio da inspiração.
A poetisa teme se já não morre o rio,
mas ainda sustenta o leme do navio,
que leva lento um lampejo de criação.
Rosemarie Schossig Torres
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Anti-Calendário
Meus outonos têm o aroma da flor do ingá,
rubras turneras que ignoram as estações...
Só precisam de manhãs com sol para florir.
Quaresmeiras atrasadas ainda esperam abril.
E... no final de maio derradeira gota de chuva
preparando um inverno que por aqui não há.
Apenas uns dias secos, de vento, sol e poeira.
Frios noturnos farão rir os minuanos sulinos.
Em agosto se Deus quiser nada se queimará.
E as pterandras reinarão nos campos em sépia.
Róseas saias dançando numa paisagem árida.
Assim cruzaremos setembro, sem primaveras...
Para que ao final venham as águas de outubro.
E desaguará o verde sobre a palha dos campos.
Um viço sem sazão, apenas o milagre da chuva,
tirando do letargo brotos, folhas e flores, ramos...
Rosemarie Schossig Torres
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