sábado, 15 de outubro de 2011

A Salvo De Mim




Alma revela, bem nos primórdios de mim...
...caos, daquela que não sabe ser quem é.
Entrei no labirinto interior e fui pé ante pé.
A casa de Dédalo, não minto, era sem fim.

Mas o despetalar da folhinha tudo altera!
E a saída foi brotando com cada tropeço;
Aos trancos e barrancos; meio ao avesso,
Ariadne me dá o fio; desenleio primaveras.

Foi árduo, mas desembaralhei essa meada!
E entre tantos círculos achei uma linha reta.
Planto meus vínculos com a próxima meta...
Cada alvo tem prevista sua própria chegada.

A salvo de mim arrisco um estado de graça.
Minha seguinte peleja é com o lado de fora.
Sem acintes posso olhar ao espelho, agora.
O que vejo em sua face já não me ameaça.

Rosemarie Schossig Torres

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A Flor Da Fé




Ah! Vida tão sem nexo; é baú de contradições.
Homens perplexos; ilhas de paz entre furacões.
Realidade com um olho que ri e outro que chora,
deixa na alma tristezas; jasmins do lado de fora.

Mas após o vendaval vem o sopro de esperança,

como depois da tempestade segue uma bonança.
E o nauta já se ergue; pode controlar o seu navio.
Aquele ciclone que então roncava agora fala macio.

Nessa vil ventania voo entre sucessos e fracassos,

vou ao avesso do que se perdeu, destoo ; me refaço.
No meio dessas intempéries, a fé, já quase sem cor,
entre os malogros em série, incrível, planta sua flor.

Rosemarie Schossig Torres

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Versos Mudos





Certo, um beijo fala mais que palavras.

Os lábios ofertam vozes não verbais.
São versos mudos que na pele lavram
trilhas subliminares, árias incidentais.

Amor não tem léxico; no olhar...Direto.
Seria complexo demais se fosse falado.
Ele dá sinais sem recorrer ao alfabeto.
Legíveis aos olhos; a dois, declarados.

...E no beijo se eriçam cinco sentidos.
É um vínculo que atiça duas metades.
e tatua orvalho nos poros comovidos.
Conjugado no pretérito vira saudade.

Rosemarie Schossig torres

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Respingando Versos




Eu encharquei as minhas palavras no tinteiro.
Depois fui saindo por aí, respingando versos,
no coração de papel, meu pequeno universo,
reino da inspiração, musa, flor desse canteiro.

Versei roseiras, aromas de soneto alvissareiro.
Poemas sem eira nem beira vieram, conversos,
pequenas liras, plantar-se na jardineira,imersos.
Alma floresce em rimas; do som faz seu parceiro.

E nas catorze linhas vou arrimando esperanças.
Abraço da fé, que em cada estrofe vem aninhar
acalentadas utopias; os pés postos na confiança.

Vozes ao vento, um doce acalanto a se propagar.
Em cada folha deito o que no sentimento dança.
Páginas desveladas; o leito do meu eterno sonhar.

Rosemarie Schossig Torres

domingo, 25 de setembro de 2011

Rimas Com O Fogo





A serra azul que era verde, agora é parda.
Recados do vento, campo afora, nefastos.
Ordenam sem tento: Que o cerrado arda!
Pira inapagável; esturricados seus pastos.

É brisa nada afável, faz rimas com o fogo.
Em lufadas arrasta chamas, deixa cinzas.
Nada a afasta de seu alvo; nenhum rogo.
Ninguém está salvo das flamas ranzinzas.

Calvo meu monte, coberto pela poeira gris.
As chuvas incertas, invisíveis no calendário.
Desbotados verdes; esperança sem matiz.
Um sinistro pintor borrou nuvens do cenário.

Sobrou a ave lamentando seu ninho perdido.
A última árvore de pé já não possui as ramas.
Queima o panorama; a destroços foi reduzido.
Em alvoroço, natureza em seu palco, reclama.

Rosemarie Schossig Torres

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Poeta E A Lua




O poeta em sonho breve,
ao olhar triste a lua,
em sua face de neve
 vê bela musa toda nua...

Suspira evocações prateadas.
Em seus olhos bóiam brumas.

Diva no meio do céu
vestida de luminescências;
envolta em esgarçado véu;
nuvens de gaze e transparências.

Transpira aura diáfana a madrugada,
que a musa convoca e logo ressuma.

Seu coração, então vaga.
Vai inventando amores...
E a mente, junto, divaga.
Imagens puras; sem cores.

Respira devaneios em baforadas,
que a noite sem estrelas perfuma...

E o bardo lamenta a distância
de sua musa clara, transparente.
Quisera ser ele uma fragrância;
envolver o corpo luminescente.

Lira de transparências rimando; vem a alvorada.
O poeta guarda a musa num véu que não esfuma...

Rosemarie Schossig Torres

Neblinas Da Alma




A lua exagera os seus dons de mistério...
Destemperam os tons... De pernas pro ar!
Eu vou junto e me governa o despautério.
Entre neblinas da alma vejo velas no mar.

Desconheço si se ilumina a escuridão...
Ou o breu escurece a luz; sem explicação!

Os estilhaços do meu espelho sugerem:
Existem muitas mais dentro de mim agora.
Sonho tragou o mundo, miragens ferem...
O que é nítido agonizou à margem, lá fora.

Já nem sei o que é reflexo, representação
e o que é imagem; verdade ou dissimulação?

A superfície declina, em coma no pantanal;
mar interno subiu à tona, mostra a sua face.
Incerteza! As brumas tomam conta do real...
Tudo é espanto; às tontas busco o desenlace.

Vagando, eu ainda não sei se vivo ou deliro...
Chão esquivo; não há nenhum lugar seguro,
enquanto não sair o sol, inteiro, de seu retiro.
Ainda quero ver o luzeiro emergir do escuro.

Rosemarie Schossig Torres