sábado, 17 de março de 2012

Nem Tudo São Flores





Sucedem-se as estações e me ajeito.
Plantei os sonhos na primavera, enfim.
Campo de probabilidades que espreito.
Verão invade tudo... sol impera em mim.

Algo destempera e nem tudo são flores. 
O outono esbarrou em mim, deu o aviso, 
de que o inverno vinha com seus rigores.
E convinha semear após o frio, o granizo.

Chega o estio conduzindo vacas gordas...
Driblo a ressaca da fartura com sapiência. 
Mas prudência sofre o assédio de vil horda.
É o tédio que leva pela mão a impotência.

Com tanta abundância para que trabalhar?.
Os restos da profícua natureza apodrecem.
Só cigarras, nenhuma formiga para guardar.
Enquanto nós dormimos as urtigas crescem.

Ao fim, antes das folhas secas eu me levanto.
Mãe terra, lavrada perdoa as feridas que faço.
Grávida do meu futuro lhe entôo um acalanto.
Abrindo caminhos, amo esse rumo que traço.

Não sou tola para achar que não há espinhos.
Por onde eu andar acharei pedras e tropeços.
Espero não sucumbir com tantos torvelinhos...
No entanto, depois da queda vem o recomeço. 

Rosemarie Schossig Torres

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Lado Coringa







Fina dama; os tropeços chumbados no gesso. 
É o tempo corroendo a porcelana dos ossos...
E lá nos vales da alma eu suturo os destroços.
Minha fênix aconselha recomeçar pelo avesso...

...De dentro pra fora, nas fronteiras do âmago.
Lá o espírito se entrincheira detrás do coração,
inscrito na essência; um lugar inverso à razão.
Busco transcendências; tirar alegria do embargo.

No lusco fusco da melancolia, esperança morre.
Tentei olhar para trás; recuperar a fé do lodaçal.
Mas o passado caducou; vi suas estátuas de sal.
Ora apelo ao meu lado coringa: vem me socorre!

Rosemarie Schossig Torres

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Poetisa Temática





Penso, considero, então escrevo;
Sinto, ausculto, logo transcrevo...
Sou minhas idéias, poetisa temática.
Métrica? Cabulei aulas de matemática...

Batucam no coração do poeta, os temas
Como cutucam em minha alma, os dilemas.
A caneta derrapa em curvas de des-inspiração
E o piloto tenta não perder o rumo da emoção

Sigo aquele velho caminho; o meu instinto
E a poesia é a estrela-guia, não minto...
Quero derramar no papel meu pensamento,
E feito verso, viajar aos quatro ventos.


Rosemarie Schossig Torres

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Felicidade Com Marcapasso




Eu giro, rodopio qual a bailarina em sua caixinha;
mal respiro ;não arredo do lugar, nem saio da linha.
E nada se modifica... Mas tantas coisas acontecem.
A música nunca muda, enquanto meus pés mexem...

...Sem chegar a parte nenhuma; segue essa guerra... 
Só por migalhas; meus sonhos a existência desterra.
A utopia é fogo de palha; no mais mera sobrevivência.
O jogo jamais se altera; dados viciados; coincidência?

Sem promessas pagas meu fado naufraga rumo ao léu.
O futuro é apenas mais um passo pra bem longe do céu.
E a felicidade com marcapasso dribla as emoções fortes.
Na corda bamba eu calibro a bússola em busca do norte.

Rosemarie Schossig Torres

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Reinventando A Lua





Alta noite. Vizualizo em pequenas tochas Antares e Sírius.
Flores astrais que desabrocham na ribalta do céu luzente. 
No cais da galáxia atracam luzes; parecem cadentes lírios.
Quisera saber como se colhe a estrela que cai de repente.

E... Penso que bom seria andar com os pés da imaginação.
Naquele quintal azul suspenso peregrinar por sua láctea via,
pra acordar do sonho trazendo a Aldebarã na palma da mão.
Com calma borda alucinação em minhas retinas essa utopia.

Sem pressa delineio  sensações que sobem na pele em flor.
Anseio distinguir cada rincão sideral e esboçar luminoso atlas.
Então depois de percorrer todos os rumos num lisérgico torpor
traço o êxodo das adversidades reinventando a lua... Agora lilás.

Rosemarie Schossig Torres

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Rainha Sem Coroa


Lá vem a bela rosa, de pétalas, bem cingida. 
Toda prosa, o anel de gotas rubi num abraço. 
E à sua volta os espinhos; fel fazendo laços.
Mas o vento vem, suga o seu vinho, sua vida.

Despetalada e daquele rubro colar despida...
Descubro a corola calva, saia feita em pedaços.
E rolam os pontos vermelhos soltos no espaço.
Inúteis os agudos acúleos, nenhuma ferida...

...Fizeram na brisa, que segue por aí valsando,
com os restos da flor...Pingos que voam à toa...
Que vão prestos pra longe do jardim, adejando.

Então fico pensando nessa rainha sem coroa...
Nua, às vésperas de uma primavera, finando,
como o amor que mesmo antes de ser já enjoa.

Rosemarie Schossig Torres

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Cores Quentes No azulejo Do Oceano


Desce ardente lava, fusão que esvai dos vulcões.
O mar azul desvanece; ondas agora são rubras;
coradas; sentem pejo de que o magma as cubra.
A cascata de lampejo ígneo arde aos borbotões.

Em jatos... Cores quentes no azulejo do oceano;
tintas vermelhas ressumam ;navio já é fantasma.
Centelhas, brumas de fogo, exalam mil miasmas.
Não há viva alma para chorar ao léu o desengano.

Um véu de fumo encarnado cinge todo o horizonte.
Tinge nuvens, são algodões embebidos de sangue.
Feroz cena estendida: do céu, terra até o mangue.
O aceso lume não desculpa nenhuma das fontes...

Daí esculpe no cenário flamas de um matiz unicolor.
Ave que se salvou por um triz agradece suas asas.
Pernas pra que te quero foram cair em covas rasas.
E já nada respira, chama não perdoa, nem faz favor.

Rosemarie Schossig Torres