quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Enigma Errante



Abro a janela e a melancolia desvanece,..
Ri e vai embora na asa daquela borboleta.
Parece uma flor arisca ou esquiva violeta,
que antes de se deixar colher desaparece.

E meu olhar se deixa absorver pelo cenário.
Sigo esse enigma errante, uma figura fofa,
meio branca, um tanto cinza, nuvem balofa.
Pensamento menos ranzinza, ao contrário...

...Perde sua compostura e azuleja pelo céu.
Delira nas alturas e olvida um pouco o chão
levado , de mãos dadas com a imaginação.
Foi só um segundo até a tristeza tirar o véu.

Rosemarie Schossig Torres



Palavras Verdes

Saboreio um poema; está só nos preâmbulos.
Dilemas remoídos; fotogramas das retinas...
As idéias que se esparramam pelas esquinas.
Mesclo tudo às minhas emoções num casulo.

Sensações aí circunscritas... Um baú de mim.
Os anseios, afãs são borboletas alvoroçadas,
assediam pensamentos para serem versejadas.
Mas a poesia é tímida e se esconde até o fim...

Palavras ainda verdes borbulham pelas linhas.
Versos fazem cócegas no firmamento da boca.
Vertem sentimentos no papel, alma inequívoca.
O que não pode ser dito ponho nas entrelinhas.

Exponho inspirações brutas; é ode em embrião.
Falta tracejar um corpo; o rosto por desabrochar.
Tenho pressa... inútil; esse tempo é difícil contar.
Mas não importa; cada peça vive em meu coração.

Rosemarie Schossig Torres

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Devaneio Colorido




Ali na linha mais imaginária do horizonte,
na área onde arde, soberano o disco solar,
nos feixes de raios dourados, áurea fonte,
comigo, braço dado, a  fantasia veio brincar.

E tanto bebeu os matizes no éter impressos,
com os olhos encharcados de ouro e azul céu,
que quase se perdeu do caminho de regresso.
Queria se embriagar no vinho anil desse véu...

Mas sonho virou pesadelo; firmamento fechou.
Tal desvelo pôs alma nesse colorido devaneio,
que nas próprias intempéries quase se afogou.
 E por muito pouco não vira tragédia o passeio.

Rosemarie Schossig Torres

domingo, 2 de setembro de 2012

Os Últimos Azuis






O bem-te-vi vem bordando sua cantoria
sobre os últimos azuis do céu vespertino. 
E suavizam o entardecer as notas, trinos,
avisando que já vai fechar os olhos o dia. 

No céu brancas nuvens de paz hasteadas; 
o verde das árvores esmaece, titubeante .
Prevalece o amarelo de plumas cantantes.
Vejo faixas da nossa bandeira recortadas...

...que se encaixam no cenário em mudança.
Prólogo à esperança e para os sonhos: imã
essa tarde ; logo será noite, depois manhã.
Abrem e fecham as cortinas; tempo avança.

Rosemarie Schossig Torres

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Pequeno Poema Campestre




Meio dia, um sol trepado no umbigo do céu... Ah!
É hora de lagartear, quando vagam pensamentos.
A viração agita seus ramos num suave movimento.
Crepitam as folhas de um outono que aqui não há...

Então pergunto ao Vento: o que tu trazes para mim?
Zéfiro responde num vaivém que faz rir a vegetação.
Depois lépido se esconde nas nuvens de algodão,
tão brancas que aparecem ...almofadas de alfenim...

São imaginações paridas na primeira brisa da tarde.
O coração acha guarida,levita junto, onírico, bucólico.
 Astro rei revigora meus sonhos já tão melancólicos.
A alma se espreguiça;  seus anseios desencardem.

Bem antes que esse dia levante  seu acampamento.
E a noite elegante venha turvar nossa esfera celeste
deixarei orvalhando meu pequeno poema campestre.
Amanhã virei abraçar o tema, que dormiu ao relento.

Rosemarie Schossig Torres

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Cenário Em Duplicata









Nem na curva da estrada eu verei o monte.
Cega o lilás das quaresmeiras, turva visão.
Um muro de lobeiras e pó negam horizonte.
Estorvando os olhos, dão um nó na amplidão.

Entre os abrolhos apenas adivinho o que virá.
Árvores pequenas e tortas na subida do morro.
Água morta ao fim de seis meses ressuscitará.
Só com as chuvas, sem nenhum outro socorro.

E na vertente entre moitas de capim arroz afinal,
subindo lentamente verei o que há do outro lado.
Cenário em duplicata do meu, de cor quase igual;
mesmos arbustos torcidos e com certo enfado...

...descubro a paisagem sem susto ou surpresas.
A  natureza avara e tosca, sem qualquer sombra.
Folhagem fosca que o sol embacia com crueza...
Só a caliandra ,flor sem primavera, me assombra.

Rosemarie Schossig Torres

sábado, 17 de março de 2012

Nem Tudo São Flores





Sucedem-se as estações e me ajeito.
Plantei os sonhos na primavera, enfim.
Campo de probabilidades que espreito.
Verão invade tudo... sol impera em mim.

Algo destempera e nem tudo são flores. 
O outono esbarrou em mim, deu o aviso, 
de que o inverno vinha com seus rigores.
E convinha semear após o frio, o granizo.

Chega o estio conduzindo vacas gordas...
Driblo a ressaca da fartura com sapiência. 
Mas prudência sofre o assédio de vil horda.
É o tédio que leva pela mão a impotência.

Com tanta abundância para que trabalhar?.
Os restos da profícua natureza apodrecem.
Só cigarras, nenhuma formiga para guardar.
Enquanto nós dormimos as urtigas crescem.

Ao fim, antes das folhas secas eu me levanto.
Mãe terra, lavrada perdoa as feridas que faço.
Grávida do meu futuro lhe entôo um acalanto.
Abrindo caminhos, amo esse rumo que traço.

Não sou tola para achar que não há espinhos.
Por onde eu andar acharei pedras e tropeços.
Espero não sucumbir com tantos torvelinhos...
No entanto, depois da queda vem o recomeço. 

Rosemarie Schossig Torres