domingo, 2 de setembro de 2012

Os Últimos Azuis






O bem-te-vi vem bordando sua cantoria
sobre os últimos azuis do céu vespertino. 
E suavizam o entardecer as notas, trinos,
avisando que já vai fechar os olhos o dia. 

No céu brancas nuvens de paz hasteadas; 
o verde das árvores esmaece, titubeante .
Prevalece o amarelo de plumas cantantes.
Vejo faixas da nossa bandeira recortadas...

...que se encaixam no cenário em mudança.
Prólogo à esperança e para os sonhos: imã
essa tarde ; logo será noite, depois manhã.
Abrem e fecham as cortinas; tempo avança.

Rosemarie Schossig Torres

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Pequeno Poema Campestre




Meio dia, um sol trepado no umbigo do céu... Ah!
É hora de lagartear, quando vagam pensamentos.
A viração agita seus ramos num suave movimento.
Crepitam as folhas de um outono que aqui não há...

Então pergunto ao Vento: o que tu trazes para mim?
Zéfiro responde num vaivém que faz rir a vegetação.
Depois lépido se esconde nas nuvens de algodão,
tão brancas que aparecem ...almofadas de alfenim...

São imaginações paridas na primeira brisa da tarde.
O coração acha guarida,levita junto, onírico, bucólico.
 Astro rei revigora meus sonhos já tão melancólicos.
A alma se espreguiça;  seus anseios desencardem.

Bem antes que esse dia levante  seu acampamento.
E a noite elegante venha turvar nossa esfera celeste
deixarei orvalhando meu pequeno poema campestre.
Amanhã virei abraçar o tema, que dormiu ao relento.

Rosemarie Schossig Torres

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Cenário Em Duplicata









Nem na curva da estrada eu verei o monte.
Cega o lilás das quaresmeiras, turva visão.
Um muro de lobeiras e pó negam horizonte.
Estorvando os olhos, dão um nó na amplidão.

Entre os abrolhos apenas adivinho o que virá.
Árvores pequenas e tortas na subida do morro.
Água morta ao fim de seis meses ressuscitará.
Só com as chuvas, sem nenhum outro socorro.

E na vertente entre moitas de capim arroz afinal,
subindo lentamente verei o que há do outro lado.
Cenário em duplicata do meu, de cor quase igual;
mesmos arbustos torcidos e com certo enfado...

...descubro a paisagem sem susto ou surpresas.
A  natureza avara e tosca, sem qualquer sombra.
Folhagem fosca que o sol embacia com crueza...
Só a caliandra ,flor sem primavera, me assombra.

Rosemarie Schossig Torres

sábado, 17 de março de 2012

Nem Tudo São Flores





Sucedem-se as estações e me ajeito.
Plantei os sonhos na primavera, enfim.
Campo de probabilidades que espreito.
Verão invade tudo... sol impera em mim.

Algo destempera e nem tudo são flores. 
O outono esbarrou em mim, deu o aviso, 
de que o inverno vinha com seus rigores.
E convinha semear após o frio, o granizo.

Chega o estio conduzindo vacas gordas...
Driblo a ressaca da fartura com sapiência. 
Mas prudência sofre o assédio de vil horda.
É o tédio que leva pela mão a impotência.

Com tanta abundância para que trabalhar?.
Os restos da profícua natureza apodrecem.
Só cigarras, nenhuma formiga para guardar.
Enquanto nós dormimos as urtigas crescem.

Ao fim, antes das folhas secas eu me levanto.
Mãe terra, lavrada perdoa as feridas que faço.
Grávida do meu futuro lhe entôo um acalanto.
Abrindo caminhos, amo esse rumo que traço.

Não sou tola para achar que não há espinhos.
Por onde eu andar acharei pedras e tropeços.
Espero não sucumbir com tantos torvelinhos...
No entanto, depois da queda vem o recomeço. 

Rosemarie Schossig Torres

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Lado Coringa







Fina dama; os tropeços chumbados no gesso. 
É o tempo corroendo a porcelana dos ossos...
E lá nos vales da alma eu suturo os destroços.
Minha fênix aconselha recomeçar pelo avesso...

...De dentro pra fora, nas fronteiras do âmago.
Lá o espírito se entrincheira detrás do coração,
inscrito na essência; um lugar inverso à razão.
Busco transcendências; tirar alegria do embargo.

No lusco fusco da melancolia, esperança morre.
Tentei olhar para trás; recuperar a fé do lodaçal.
Mas o passado caducou; vi suas estátuas de sal.
Ora apelo ao meu lado coringa: vem me socorre!

Rosemarie Schossig Torres

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Poetisa Temática





Penso, considero, então escrevo;
Sinto, ausculto, logo transcrevo...
Sou minhas idéias, poetisa temática.
Métrica? Cabulei aulas de matemática...

Batucam no coração do poeta, os temas
Como cutucam em minha alma, os dilemas.
A caneta derrapa em curvas de des-inspiração
E o piloto tenta não perder o rumo da emoção

Sigo aquele velho caminho; o meu instinto
E a poesia é a estrela-guia, não minto...
Quero derramar no papel meu pensamento,
E feito verso, viajar aos quatro ventos.


Rosemarie Schossig Torres

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Felicidade Com Marcapasso




Eu giro, rodopio qual a bailarina em sua caixinha;
mal respiro ;não arredo do lugar, nem saio da linha.
E nada se modifica... Mas tantas coisas acontecem.
A música nunca muda, enquanto meus pés mexem...

...Sem chegar a parte nenhuma; segue essa guerra... 
Só por migalhas; meus sonhos a existência desterra.
A utopia é fogo de palha; no mais mera sobrevivência.
O jogo jamais se altera; dados viciados; coincidência?

Sem promessas pagas meu fado naufraga rumo ao léu.
O futuro é apenas mais um passo pra bem longe do céu.
E a felicidade com marcapasso dribla as emoções fortes.
Na corda bamba eu calibro a bússola em busca do norte.

Rosemarie Schossig Torres