domingo, 29 de janeiro de 2017

Borrão Perdido



Diante do verde-azul da paisagem, uma teia.
Será intransponível? O olhar-inseto nada vê,
sufocado no fio invisível que Ariadne semeia
no puro ar... Põe a transeunte à sua mercê...

E num rejunte de pontos constrói o seu muro.
Rendeira de oito patas, sua casa é um alçapão,
tecido em ouro e prata, tatuagem no escuro...
de um fictício papel em branco, mata o borrão...

...perdido no terreno das ideias, resgata-palavras,
presas em um outro labirinto, entranhado em mim,
empoçada num círculo vicioso triste, de pouca lavra,
de difícil localização, que por enquanto teve um fim...


Rosemarie Schossig Torres

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Nos Umbrais Da Liberdade


Nos umbrais da liberdade Falena se detém. 
Fada de asas quase diáfanas, bem pequenas,
para tantos ventos avessos trazendo nuvens,
que a fresta anuncia, aparência nada serena.

Pára o tempo, átimo de agonia e perplexidade.
Ah! Luz arrebatadora, cega os olhos e alucina,
trafega pelas pupilas cheias de ansiedade...
Sorrateira faz tremer a sua figura de bailarina.

Já cansou de estar protegida, pairar na vidraça
ao lado flores de plástico e cômodos desbotados.
De bom grado ela escaparia, ganhando a praça
nas graças da brisa com o coração acelerado...

Indecisa olha outra vez pela janela entreaberta.
Verdes e laranjas, bailam, eclipsando a visão, 
esbanjando coloridos; sua borboletice desperta
e num rompante alça voo e ganha a amplidão...

Rosemarie Schossig Torres

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Paciência



Em um trecho escuro do quarto
pena uma tristeza tentando sorrir,
buscando talvez na beleza guarida.

E vê no meio do caminho do querer
a dor, como uma pedra ou um nó...
azedando o riso e cevando o sofrer.

E ficou uma lágrima rondando a casa,
vacilando em rodapés de intempéries.
Vida e desejo díspares; desarmonia...

Então cai uma chuva gris sobre os dias...
Foi a alegria que esqueceu o gozo no pó,
enquanto a alma flertava com o dissabor.

Só por agora o momento frio, de escuridão.
Pois há um estremecimento na melancolia,
como querendo desvencilhar-se...paciência!


Rosemarie Schossig Torres

sábado, 16 de julho de 2016

Amanhecer Sem Noção



Que rara manhã! quero-queros silenciosos
e entre pombos ociosos rondam os carcarás.
O sol mostra no céu o seu alvará de soltura,
depois se esconde atrás de moitas de nuvens.

Nenhum sinal responde aos gritos das araras,
que passam raspando na linha do horizonte...
Aquela avezinha cinzenta até parece colorida
no solo sem aquarela de troncos incendiados.

Amanhecer mais sem noção! Tanta preguiça
em dia pedindo vigor, enguiça as engrenagens,
espalha torpor...talvez seja esse calor de verão
e ainda nem é primavera! Aonde vamos parar!

Rosemarie Schossig Torres

domingo, 10 de julho de 2016

Lampejo de Criação





Em minha reclusa alma invernal
hibernam quietinhas as palavras.
Um silêncio de luto; pouca lavra,
onde se apoucam ideias sem sal.

Feito as loucas ninfeias do olvido
(não sabem a água onde nasceram)
odes abnegam a fonte que beberam;
segam a poesia que poderia ter sido.

Por seca via corre o fio da inspiração.
A poetisa teme se já não morre o rio,
mas ainda sustenta o leme do navio,
que leva lento um lampejo de criação.

Rosemarie Schossig Torres

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Anti-Calendário








Meus outonos têm o aroma da flor do ingá,
rubras turneras que ignoram as estações...
Só precisam de manhãs com sol para florir.
Quaresmeiras atrasadas ainda esperam abril.

E... no final de maio derradeira gota de chuva
preparando um inverno que por aqui não há.
Apenas uns dias secos, de vento, sol e poeira.
Frios noturnos farão rir os minuanos sulinos.

Em agosto se Deus quiser nada se queimará.
E as pterandras reinarão nos campos em sépia.
Róseas saias dançando numa paisagem árida.
Assim cruzaremos setembro, sem primaveras...

Para que ao final venham as águas de outubro.
E desaguará o verde sobre a palha dos campos.
Um viço sem sazão, apenas o milagre da chuva,
tirando do letargo brotos, folhas e flores, ramos...

Rosemarie Schossig Torres

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Entre Ausências E Cicatrizes



Desse tal relógio! Pouco ou nada sei. 
O tempo ao contrário me sabe bem...
Furta-horas, salafrário como ninguém.
Em conta-gotas perco o que já passei. 

Mas a labuta das manhãs eu conheço 
E aquela modorra buliçosa das tardes!
Não conto os minutos, nem faço alarde.
Dias passam num calendário travesso.

Folhas que esvoaçam num afã diário...
lá no varal a roupa dança com o vento. 
Há poemas inéditos nesse movimento,
que por enquanto são só imaginários...

À noite reparto sonhos com fantasmas,
num videotape dos momentos felizes.
Sobrevivo entre ausências e cicatrizes.
Empresto fôlego á alegria com asma...

Rosemarie Schossig Torres